Duas

Quatro e meia da manhã. Garrafas vazias enfileiradas, cinzeiros transbordantes, atmosfera enfumaçada, duas moças na mesa do bar.
A primeira lastimando a perda recente do amante, numa tristeza profunda e real, com uma desesperança estampada no olhar. Com uma atitude de quem parece não estar acostumada ao sentimento de perda, como se já não tivesse sido abandonada outras tantas vezes pelo mesmo e por outros, como se não fosse perfeitamente rotineira aquela conversa de sexta-feira em que punham para fora as mágoas e as angústias as duas ali, mesma mesa, mesmo bar, mesma marca de cigarros, mesmo tudo, sempre, todas as sextas-feiras de dezembro, de janeiro, de maio e de todos os meses ao longo de anos de amizade.
A outra, desviando o olhar do azul profundo e hipnótico dos olhos da primeira e buscando o próprio reflexo no enorme brinco de bijuteria barata da amiga, já não a ouve tão atentamente como outrora, os pensamentos voando longe, a cabeça alucinada, a música há dias em sua mente num frenético e interminável repeat.
"O meu destino é caminhar assim / Desesperada e nua / Sabendo que no fim da noite serei tua / Deixa eu te proteger do mal, dos medos e da chuva / Acumulando de prazeres teu leito de viúva"*
Muda, fixa o olhar na boca que continua a lamentar-se do outro lado da mesa. Grande, carnuda, vermelha, desejável.
"Vamos ceder enfim à tentação das nossas bocas cruas / E mergulhar no poço escuro de nós duas"*
A primeira, ao perceber o repentino encanto exercido sobre a outra, cala-se. Como se todo aquele assunto já não fosse mais tão importante, como se as perdas e mágoas e angústias tivessem se dissipado assim, repentinamente, como se já não existisse nada além das duas naquela mesa de bar com garrafas vazias enfileiradas e cinzeiros transbordantes.
"Vamos viver agonizando uma paixão vadia / Maravilhosa e transbordante, feito uma hemorragia"*
E, no momento em que se encontram os olhos azuis profundos e hipnóticos com os castanhos de alma triste, a descoberta. Sorriem. Seguram-se as mãos. Compreendem-se, enfim.
As noites de sexta-feira jamais tornarão a ser as mesmas.
* trechos de Bárbara, de Chico Buarque e Ruy Guerra

Quatro e meia da manhã. Garrafas vazias enfileiradas, cinzeiros transbordantes, atmosfera enfumaçada, duas moças na mesa do bar.
A primeira lastimando a perda recente do amante, numa tristeza profunda e real, com uma desesperança estampada no olhar. Com uma atitude de quem parece não estar acostumada ao sentimento de perda, como se já não tivesse sido abandonada outras tantas vezes pelo mesmo e por outros, como se não fosse perfeitamente rotineira aquela conversa de sexta-feira em que punham para fora as mágoas e as angústias as duas ali, mesma mesa, mesmo bar, mesma marca de cigarros, mesmo tudo, sempre, todas as sextas-feiras de dezembro, de janeiro, de maio e de todos os meses ao longo de anos de amizade.
A outra, desviando o olhar do azul profundo e hipnótico dos olhos da primeira e buscando o próprio reflexo no enorme brinco de bijuteria barata da amiga, já não a ouve tão atentamente como outrora, os pensamentos voando longe, a cabeça alucinada, a música há dias em sua mente num frenético e interminável repeat.
"O meu destino é caminhar assim / Desesperada e nua / Sabendo que no fim da noite serei tua / Deixa eu te proteger do mal, dos medos e da chuva / Acumulando de prazeres teu leito de viúva"*
Muda, fixa o olhar na boca que continua a lamentar-se do outro lado da mesa. Grande, carnuda, vermelha, desejável.
"Vamos ceder enfim à tentação das nossas bocas cruas / E mergulhar no poço escuro de nós duas"*
A primeira, ao perceber o repentino encanto exercido sobre a outra, cala-se. Como se todo aquele assunto já não fosse mais tão importante, como se as perdas e mágoas e angústias tivessem se dissipado assim, repentinamente, como se já não existisse nada além das duas naquela mesa de bar com garrafas vazias enfileiradas e cinzeiros transbordantes.
"Vamos viver agonizando uma paixão vadia / Maravilhosa e transbordante, feito uma hemorragia"*
E, no momento em que se encontram os olhos azuis profundos e hipnóticos com os castanhos de alma triste, a descoberta. Sorriem. Seguram-se as mãos. Compreendem-se, enfim.
As noites de sexta-feira jamais tornarão a ser as mesmas.
* trechos de Bárbara, de Chico Buarque e Ruy Guerra

6 comentários:
Boa estória lésbico-romântica.
querida Carol.
a tua inteligência me deixou feliz.
que lindo.
aieee!!!
que lindo conto!! amei!
eu queria uma dessas garotas pra mim, (exceto as da história) minhas amigas andam tão heteros... e eu saído tão pouco...vem férias! vem logo!!
ahahahha
beijos.
ah, soa tão lindo.
eu também tenho noites de sexta-feira inesqueciveis.
lindo-de-morrer.
o Mundo de vezenquando aparece aqui só para me fazer sorrir, já que na maioria das vezes faço nascer árvores com frutos com minhas próprias lágrimas.
eu amei teu espaço.
espero que volte sempre.
Safadinhas essas duas... hahahaha
O texto é um primor, mas o desfecho me pareceu meio nebuloso, apesar de você nem ter dito nada, o subentendido me pareceu bem claro...
Guarde para si os elogios sobre a obra em si. A crítica é coisa de Régis Marques. Pergunte à Dani Hyde, ela poderá lhe falar mais sobre isso...
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