23/11/07

Rotina.



Uma criança tola cruzando a Vasco em direção a Oswaldo Aranha. Possui olhos grandes, azuis sem expressão, ainda maiores por causa da cocaína. Esconde-os bem com o lápis - à essa hora da manhã o traço negro toma mais que os olhos. Aliás, esconde todas as coisas fundas com futilidades. Acha tão bonito atravessar o viaduto, por baixo, que sorri. De repente repara o contraste daquela cena: as botas altas, os olhos saltados, a cara estampando a noite que virou - essas coisas todas de fora - e ela ali, sorrindo num tom quase infantil para o viaduto vazio e cheio de cores e intervenções artísticas, sem pretensões, simples e perfeito - essas coisas todas de dentro. Plena sintonia: Lara, só querendo ser Lara - quem sabe até só a Lara de fora, tanto fazia naquele momento - e Viaduto Vazio, só querendo ser um viaduto vazio. Mas sabia ela e até quem sabe o viaduto: o mundo não deixa ninguém ser o que quer assim, tão fácil, tão sem esforços e por tanto tempo. Um carro buzinou alto, feio, agredindo tudo. O momento se rompeu. Lara sabia que era único, sem chances de repetição. Quis chorar. "É a depressão do pó que tá batendo", imaginou João falando, em tom repreensivo. Mas sabia que não, era pura e triste lucidez. A certeza de que aquela alegria pequena que se encontra vezenquando no viaduto, num pulo ou no meio da calçada não se repetiria mais ali, daquele jeito. Tinha que encontrar outras coisas que a trouxessem de volta. Mas é sempre inesperada. Tão frágil, tão incerta, tão arisca. Como um gato, lembrou. Talvez tenha dito em voz alta: minha alegria é assim como um gato branco de olhos amarelos.

Quando voltou a prestar a atenção no lado de fora, percebeu que havia sentado no chão. Embaixo do viaduto, agora sem seu gato-alegria escorregadio, tinha uma mão no rosto e a outra entre as pernas. Seria vulgar se não fosse triste, muito triste. Pensou estar ouvindo uma música, longe, mas talvez viesse de dentro: some people are marching together and some on their own / quite alone / others are running, the smaller ones crawl / but some sit in silence, they're just older children. Veio como resposta, sabe-se lá de onde. Então era isso, era just older children, sentada sem cansaço, sem dor, sem nada, ali. Querendo apenas ser Lara no viaduto. No alarms and no surprises. Mas isso já era outra música.

Uma mulher de vermelho olhou feio. Não que tivesse alguma importância para ela os eventuais olhares desconhecidos. Mas doía ver outras pessoas querendo incriminar&ferir alguém que nem conheciam, por motivos que nem imaginavam quais eram. A agressora tinha talvez uma aparência pior que a dela, analisou sem querer julgar. Um vestido apertado mostrando todas as imperfeições do corpo, gordura e mais gordura, o cabelo loiro claríssimo, uns três dedos de raiz morena, as unhas por fazer e o salto altíssimo, tudo tão feio. E, combinando com tudo isso, uma bolsa de pele falsa que lembrava jacaré. Ou cobra. Isso! O animal dessa mulher era a cobra. (Todas as pessoas são representadas por um animal.)

Um cigarro atrás do outro e o seu ônibus demorando, parecia um tanto fora do controle e continuava a encarar Lara com muita raiva vinda sabe-se lá de onde. Talvez quisesse ter sido assim como ela, capaz de ficar sentada embaixo de um viaduto sem se deter em nenhum pensamento por muito tempo, talvez apenas sentisse nojo, talvez sua filha mais nova fizesse a mesma coisa. Lara nunca saberia, e isso não a incomodava. O pensamento passava rápido e leve, sem trazer qualquer tipo de sentimento.

Apesar de toda essa leveza, começava a sentir-se mal ali. De repente tinha ficado frio demais e carros passavam cada vez mais e mais apressados. A mulher nojenta - a quem Lara agora também odiava sem motivo algum reciprocamente - continuava lançando seu olhar talvez reprovador para alguém que sequer conhecia. O bem-estar sumira. Aquilo tudo tinha ficado de uma hora para outra muito feio e doído. Pensou em voltar para o apartamento quente, cheio de amigos e drogas, mas não podia. Ou não queria poder. Levantou-se lenta e cheia de preguiça, ajeitou a saia e a meia-calça furada de cigarro, espreguiçou-se e fitou uma última vez sua nova inimiga que ainda esperava o ônibus. Saiu caminhando, leve, porém melancólica. Mais duas quadras e um ônibus e dois reais e uma quadra até a porta e a chave e o pijama e a cama e o sono para recomeçar a noite que acabara de passar, do mesmo jeito, com as mesmas pessoas, as mesmas drogas, as mesmas músicas, as mesmas alegrias falsas, as mesmas frustrações, ilusões e dores. Pelo menos por aqueles dias, aquelas horas, isso era viver.

1 comentários:

Marie disse...

a fude teu texto Mary!!!

é, é a triste realidade.

ainda bem que euzinha resolvi não fazer mais parte disso..digo, dessa vida que descreveste.

perdi minha conta do google e nao consigo fazer outra pra postar aqui, dio madona!!

mas vou tentando.

escreva sempre que quiser e seja bem vina ao classudas!

beijos